6 meses

Meu filho faz 6 anos dentro de algumas horas. O texto abaixo, escrevi quando ele fez 6 meses de vida.

Concerto para Piano em Fá Menor de Johann Sebastian Bach
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Neste breve período em que me tornei mãe – há quase 6 meses -, descobri que dormir 8 horas por dia é pura balela, o nosso corpo não precisa desse ‘exagero’.

Aprendi que não precisa esperar seu filho crescer para começar a conversar com ele. E que não se deve ter medo de segurar a criança no colo, afinal não quebra. Cristais quebram. Aço quebra. Uma criança nos braços dos pais não quebra.

Aprendi que não é necessário chamar a vovozinha, a sogra, a vizinha ou Jesus Cristo para dar o primeiro banho no seu filho. Nem o segundo, o terceiro, o quinto e até o quadragésimo. Você mesmo vai saber fazer isso melhor do que ninguém. Dar banho no seu filho passa a ser, de longe, o melhor acontecimento do dia. Com todo o cuidado, que é para não cair sabão nos olhos dele. E, creia-me: não cai.

Aprendi também que se você não estiver preparado para chorar muito, quase feito um bebê tão recém-nascido quanto seu filho, não coloque para tocar o Concerto para Piano em Fá Menor de Johann Sebastian Bach quando ele fizer 5 dias de vida. Não faça isso.

Aprendi que uma dor qualquer no seu filho dói à décima potência em você. Que você sufoca se ele não respirar direito. Que seu estômago ferve quando ele tem cólica.

Aprendi que um dia com uma criança que acabou de nascer tira mais a sua energia que se você passasse esse mesmo tempo carregando pedras nas costas para o alto de um morro.

Mas aprendi também que um minuto desse mesmo dia olhando para o seu filho lhe dá mais energia que ficar de férias um ano na praia ou pescando siri-patola de papo pro ar.

E que esse negócio de “nunca vou trocar uma fralda na vida” só serve para quem nunca teve filho. Você troca cantando. E que a mãe reúne mais forças e coragem que um batalhão inteiro marchando incentivado para a guerra.

Aprendi que o sono nunca mais será o mesmo. Que a vida não será mais a mesma. Que as perspectivas não serão mais as mesmas. E que o mundo não será mais o mesmo. O tempo não é mais seu: você almoça quando ele deixa, dorme quando ele permite, sai quando ele adormece e volta o mais rápido possível antes que ele acorde.

Aprendi que a gente é muito mais instinto que inteligência e que a inteligência não tem nada, absolutamente nada, com o instinto. Que não sou tão forte quanto imaginava e muito menos tão frágil quanto cheguei a pensar um dia. E que não existe um modelo de mãe, por melhor mãe que você tenha tido ou ainda tem a sorte de ter. E que aprender a ser mãe é como aprender a andar de bicicleta: você tem de assumir todos os riscos – de cair, esfolar os cotovelos ou até perder um dente de leite. No final valerá a pena ter superado o medo. Ter pedalado, cambaleado para encontrar o equilíbrio.

Percebi que, por mais que você tenha vivido, viajado, rido, escutado, aprendido, enfim, por mais que você tenha realizado um monte de coisas, você fica com a impressão de que nunca fez algo que chegasse aos pés minúsculos do seu filho.

Aprendi que não importa o que ele vai ser quando crescer: mergulhador em Fernando de Noronha, fotógrafo na Bósnia, cientista, advogado, médico ou jogador de futebol. Só importa que seja feliz e se realize naquilo que faz.

E o mais importante: aprendi que não sei absolutamente nada sobre isso. Nada. Que o futuro não se mede mais no calendário, mas nos segundos que você supera a cada momento que esse milagre vai passando de graça diante dos teus olhos.