Fraturas

Re-publiquei com autorização esse texto que representa bem, o que esse – e todos – os finais de ano representam para mim.
por @anamangeonhttp://www.anamangeon.com/blog/2010/12/20/fraturas/

A mandíbula moveu-se rapidamente para a direita, depois para a esquerda e pude sentir na língua o calor desprendido pela fagulha que cintilou secretamente dentro da minha boca, acompanhada por um estalido oco. Bochechei com saliva. Cuspi meio molar na palma da mão e fiquei aguardando a dor que certamente viria. Não bastasse as febres sem explicação e os desmaios.  Era preciso mudar antes que não me sobrassem dentes, antes que nunca mais houvesse dias sem enxaquecas. Antes que todos os chopes se tornassem amargos demais e a vida se convertesse numa roda-viva de resmungos e auto-comiseração.

Suspirei mais alto do que gostaria e ele me olhou indagativo. Abriu com a ponta dos dedos a minha mão e invadiu a privacidade da palma onde eu escondia aquela meia banda de dente. “Outro?”, perguntou. Movimentei os olhos, dando-lhe uma resposta que podia ser tanto um sim quanto um não. “Eu nunca vou entender essa sua ansiedade destrutiva…” – murmurou com alguma dó e retirou-se da sala sem olhar-me novamente.

A ansiedade era muito simples de explicar e praticamente impossível de entender: era preciso que o ano terminasse. Era preciso que eu me pudesse iludir, como se realmente a vida zerasse o placar no estourar dos rojões. Eu precisava dessa anistia imaginária. Eu precisava dessa fé ignorante de que, arrancada a última página do calendário, as dores cessariam e todas omissões seriam perdoadas. Eu  precisava acreditar que toda minha coleção de pequenos e grandes pecados finalmente encontrariam sua mágica redenção.

Eu precisava que o ano terminasse logo. E contava os segundos para o merecido repouso vestida com uma aparente apatia que nada mais era que um espelho reverso da minha alma; ali eu era a antítese de toda essa urgência que me desgasta os dentes, inflama a carne e fustiga a alma.

É tipo assim

Agente coloca um sorriso no rosto, e finge que está tudo bem, queestá feliz.

Fica o dia inteiro twitando, como se tudo estivesse absolutamente nos eixos.

Mas, quando a noite cai…

Como compôs o saudoso “Roberto Esquilaro”:

Agente segue o caminho e sempre perde a direção.

Eu queria entender

Eu só queria entender porque as pessoas insistem em ter certeza do que eu preciso ou do que eu quero.

Quantas vezes eu já ouvi, não sou o que você espera, ou o que você merece.

Será que sou tão especial a ponto de merecer apenas um príncipe encantando de cavalo branco? Nah, longe de mim.

Quero pessoas normais, com seus defeitos normais, que estejam apenas dispostas a estar comigo. Não todo dia, não toda hora, pois eu nem posso sair todo dia. E também, por hora, não quero nem casar novamente, ao contrário do que pode parecer.

O que eu faço de tão errado pra nada dar certo?

Porque eu assusto as pessoas?

Juro que estou feliz do jeito que estou. Sou independente, cuido de  minha casa, de meu filho. Só queria poder as vezes, dormir encostada em um ombro, ganhar um abraço e um beijo de boa noite. Será que é pedir muito?

Porra, tá foda viu. Finalzinho de ano de merda que acabe logo.

Ninguém me entende, e não me deixam explicar pessoalmente. Só conheço homem “vidente”.

Como diz o @morroida : Grato, morram.

Boas novas

Há quase um ano e meio atrás, escrevi um post desabafo ( pra variar ) comentando o estado de saúde da minha mãe. O post chama-se “Chá de sumiço“, e foi escrito tanto para desabafar, como para explicar publicamente porque eu tinha sumido.

Mas, o post hoje chama-se Boas novas, então…

Semana passada finalmente eu consegui ter um diálogo – depois de todo esse tempo – com minha mãe que me deixou muito, muito feliz. O conteúdo da conversa, nem faz tanta diferença, mas eu consegui sentir lucidez, amor, carinho, preocupação efetiva de mãe, e mais legal ainda, de amiga. De mãe pra filha, de mãe solteira pra mãe solteira, de amiga pra amiga.

E eu me senti feliz. E eu chorei quando me despedi, e ela também. Ambas disfarçando o choro, mas ele estava lá, como um brilho a mais nos olhos.