Doces ou Travessuras!

Não tenho motivos para gostar de Halloween, e nem teria motivo para falar dele. Mas o que acabou de me acontecer merece algum registro.

Toca a campainha, meu filho corre atender a porta – sempre peço pra ele perguntar quem é antes de abrir, mas ele geralmente abre sem perguntar. Ele abre e vem correndo meio assustado me chamar: mamãe, mamãe!

Vou ver o que está acontecendo e tem 3 menininhas vestidas de bruxinhas com uma cestinha na mão, ao me verem corredor adentro dão um grito: Doces ou travessuras!

- Ih! *minha vez de gritar e depois de um silêncio pra entender o que está havendo, continuo:

- Sorte que eu tenho criança em casa hein?!

Pego no armário da cozinha um pacote de balas, coloco na cestinha e elas ficam todas sorridentes dizendo obrigada e vão embora pra próxima campainha.

Não corra. Não morra.

Eu já tive certeza absoluta que tinha neurose midiática. Lia mais de 200 feeds por dia, não ficava com o pc ligado sem agregador de IM (2 contas msn + 1 gtalk + 1 yahoo messenger). Meu firefox nunca tinha menos de 15 abas abertas. Fazia 3 jobs ao mesmo tempo. Tudo na boa e sorrindo. Chegava em casa e fazia mais 5 horas de freela. Foi assim por uns 3 anos.

Como uma profissional tão ‘eficiente’, troquei de empresa, fui pra uma onde eu podia ter mais futuro. Fui promovida, mais job. Igualmente a responsabilidade dos freelas foi aumentando, já que agora eu podia cobrar muito mais, pois sempre entregava bons jobs e sempre cumprindo todos os prazos.

A quantidade de trabalho comercial, sempre crescendo, responsabilidade, entrega de projetos, alguns atritos com o chefe que sempre me atacavam a gastrite, mas independente disso, emprego 100% garantido. Cada dia saindo um pouquinho mais tarde do trabalho. Cada dia indo dormir mais tarde, pois tinha uma meta de trabalho freela a cumprir por dia.

Independente do quanto eu me esforçasse, de que cada dia eu dissesse: Hoje vou dar uma ripa para amanhã poder sair mais cedo, eu nunca, nunca conseguia me livrar das enrolações do dia a dia. E sempre me atrasando mais para os freelas, e nunca me liberando do trabalho comercial.

Desisti de ler os feeds, para economizar tempo. Desliguei uma das contas do msn, e na outra, coloquei full-time o aviso de ocupado. O tempo passou. Apesar detrabalhar ‘sentada’ chegava em casa extremamente cansada. Chegava em casa 10:30, encostava no sofá e dormia. Não conseguia mais freelar de dia de semana. Passei a exclusivamente freelar aos finais de semana. Trabalhava cerca de 25 horas todo final de semana.

No trabalho comercial, mais responsabilidade, agora, tendo que lidar ‘internamente’ com um conflito enorme. Falar mal do meu chefe que não me ajuda o suficiente e ficar ruim com ele. Mas poxa vida, meu chefe é sócio da empresa!

Passei a dar menos atenção aos meus freelas. Passei a receber cobranças pesadas por email, e passei a ignorá-las, pois não podia cumprir. Recebia ligações de cobrança.

Não atendia mais o telefone de número desconhecido. Não abria mais a conta de email freela, para evitar ‘gastura’. Fiquei com gastrite fuckin power. Passei a tomar comprimidos todos os dias. Uma dose reduzida de tratamento para úlcera.

Perdi todos os prazos do maior freela que consegui pegar – não pela quantidade de grana, mas pela porta que eu estava abrindo. Um job internacional, receber em dólares. Chamei um programador para deixar “redondinho” tudo que fosse de programação mais power, ele não fez nada do job. Me deixou numa saia justa, e eu deixei sem saia quem me indicou para esse job e fazia a parte de layout do job.

Um dia, fui tentar produzir um pouco, as senhas não funcionavam. Mandei um email dizendo que não consegui subir pro ar, mas estava no zip as alterações. Recebi como resposta um foward de um email enviado para a conta freela dizendo que eu estava desligada do job, e outro programador ia assumir. Quase morri de desgosto.

Nisso, nem mesmo a home do UOL eu abria mais, pois tinha que trabalhar.

E no trabalho comercial, minha gota d’agua foi o trampo que deveria ter sido freelado porque não tínhamos equipe para produzir, e a única pessoa com quem consegui tempo pra conversar sobre o job declinou, e eu não tinha como falar com outra pessoa porque realmente não arrumava tempo, e mesmo assim, entubei o projeto, porque afinal, era importante para a saúde da empresa. Mesmo tendo avisado o chefe que não gostaria de pegar.

Passei a utilizar o final de semana para esse job. Quando chegava a data de entrega de cada uma das fases, eu me esfolava no final de semana para produzir o que deveria ter produzido em cronograma o trabalho de duas semanas.

Na última entrega do job, surtei. Disse que ia ficar em casa os próximos 15 dias e ema ema.

Fui pra casa, não abria mais email, não ligava mais nenhum IM. Não lia RSS. Não ligava o celular. Tirei o telefone fixo da parede. Fui ao psiquiatra.

Passei a tomar remédios. Me esforcei ao máximo para conseguir entregar um único freela, que era o último da série ‘grandes freelas’. Me descabelei, chorei, gritei de desespero quando o PC não funcionou por 2 horas. Dei piti, marido veio do trabalho em casa me salvar. Fiquei em casa com a sogra ‘me cuidando’ pra não fazer merda.

Os remédios fizeram efeito. 30 dias se passaram das férias forçadas, voltei ao trabalho, no mesmo dia pedi as contas, pois naquele dia de manhã tinha aceitado uma oferta de emprego para ficar trabalhando de casa.

Hoje, continuo sem ler e-mail pessoal, não abro MSN. Faço esforços fenomenais para me concentrar. Um simples alt+tab me tira a concentração e esqueço o que estava fazendo. Demoro as vezes 1 hora e meia para lembrar o que ia fazer, e recomeçar.

Voltei a não atender telefone desconhecido. Ainda não desliguei o telefone fixo da parede, mas já não atendo quando ele toca, se o número não for conhecido. Pra me confundir toda, marido trocou o número do celular, agora acho que nem ele tenho atendido mais, se é que ele tem me ligado.

Enfim. Não trabalhe muito. Não se esforce tanto no horário comercial, não se preocupe com o faturamento – nem mesmo os sócios se preocupam. Não faça tantos freelas. Não corra. Não morra.

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Engenheiros do Hawaii – Infinita Highway

Não queremos
Lembrar o que esquecemos
Nós só queremos viver
Não queremos
Aprender o que sabemos
Não queremos nem saber
Sem motivos, nem objetivos
Estamos vivos e é só
Só obedecemos a lei
Da Infinita Highway
Highway! Highway!…